1ºas Jornadas transfonteiriças de bioconstrução e arquitectura tradicional em Trás os Montes
De 28 a 30 de Abril 2005, estivemos presentes nas “1as Jornadas transfonteiriças de bioconstrução e arquitectura tradicional em Trás os Montes”. Seminário organizado pela plataforma cultural transfronteiriça – Adidodec, Aldeia, Associartecine e Palombar – procurou fazer o encontro entre os arquitectos da cidade e da aldeia, entre a arquitectura da “escola” e a arquitectura popular, partilhando modos de fazer e experiências, dentro de um ambiente informal e de saudável convivência. Tendo como pano de fundo uma região de Portugal – Miranda do Douro – que ainda conserva alguns valores da ruralidade e da pacifica convivência do homem com a natureza, marcada pelo rio Douro, pelas suas escarpas que fazem fronteira com a vizinha Espanha e assinalam de uma forma indelével, a força da natureza numa zona do pais onde ainda é possível viver o ritmo da natureza no seu estado mais puro. A participação neste seminário vem mais uma vez acentuar a importância de repensar a forma como nos relacionamos com o ambiente natural, sabendo que a postura que escolhermos vai ditar o futuro que reservamos para os nossos filhos. A relação entre a construção tradicional e a construção ecológica é mui to próxima, ambas procuram as melhores soluções com o menor desperdício de materiais e energia. Neste capitulo são muitas as lições que ainda temos de reaprender com os nossos antepassados. Os antigos sistemas de construção utilizavam materiais de fontes renováveis e que provinham das proximidades do local de construção, as tecnologias aplicadas eram simples e eficazes, muito contextualizadas com a realidade e o clima local, premissas da chamada bioarquitectura, uma arquitectura mais “amiga” das pessoas e do ambiente que tem vindo a ganhar adeptos.Tendo como ponto de partida a divulgação, experiência prática e o debate, este seminário reuniu participantes e oradores, dos dois lados da fronteira, representando áreas aparentemente distintas como; arquitectos, antropólogos, biólogos, agrónomos, entre outros; o que possibilitou a discussão e a partilha, de conhecimentos e experiências extremamente interessante.Durante os três dias em que decorreu este seminário, pudemos observar diversas casas tradicionais, cuja forma e técnicas construtivas se adequavam perfeitamente ao meio em que se inserem; utilizando materiais da região e adoptando uma forma perfeitamente adequada á função que desempenham. Numa visita á casa da Sra. Avelina e do Sr. Vítor Rodrigues, – onde provamos uns fantásticos bolos tradicionais muito bem acompanhados pelo vinho da região -, percebe-se como todos os espaços da casa estavam perfeitamente dimensionados para as funções que desempenhavam. Estas casas destacam-se pelo pátio interior que é o seu epicentro. Os grandes portões voltados para a rua permitiam um fácil acesso aos carros de bois, carregados de feno e produtos agrícolas. Nestas casas o fim do dia era passado a organizar pelas diversas divisões tudo o que chegava pela porta principal sendo o pátio o local que distribuía as funções pelo resto da casa. A casa tinha dois pisos, o rés-do-chão era onde se localizava a cozinha, as divisões afectas ás alfaias agrícolas, os locais de armazenamento e espaços para os animais. Ao nível do primeiro piso localizavam-se os quartos, sempre pontuados com uma varanda voltada para o pátio interior. Este conjunto resultava em edifícios com uma área coberta considerável.Estas construções de carácter rural são constituídas por largas paredes de pedra granítica da região, aparelhadas segundo técnicas ancestrais. Numa demonstração feita por Eduardo Paulo, um antigo pedreiro, foi possível entender como se escolhem e colocam as pedras na construção de uma parede – o principal segredo deste tipo de construção -. As pedras são ligadas com argamassas naturais, – uma mistura de terra e palha -, formando muros de grande solidez.Numa outra visita tivemos a oportunidade de observar um forno de telhas, recentemente recuperado, onde o Sr José Xisto trabalhou muitos anos. Com recurso a três instrumentos rudimentares ele conformava uma telha de cerâmica, que depois era colocada ao alto, no interior do forno. O forno é uma construção em pedra com um formato quase cubico, mas cujo topo está aberto, por baixo existe um espaço onde se coloca a lenha, e acende a fogueira. Quando o forno ficava cheio de telhas, era coberto e acendia-se a fogueira, que tinha de ser mantida por cerca de dois dias. Estas telhas de cerâmica produzidas manualmente tem uma resistência superior ás fabricadas actualmente com recurso ás novas tecnologias.
Para quem quiser visitar aqui fica o roteiro – Cidade de Miranda do Douro – Aldeias de:
Freixiosa – Atenor – Castelo de Algoso – Sendim – Ifanes – Minas de Sto. Adrião – Barrocal.
Princípios fundamentais da Bioconstrução
- Os edifícios para habitação deverão ser construídos em zonas, não poluídas por industrias ou tráfego viário.
- Devem ter como vizinhança amplas zonas verdes.
- Os materiais de construção terão que ser naturais e não tóxicos, deverão também ser escolhidos de forma a terem um longo tempo de vida e baixa manutenção. Durante a sua manufactura deverão provocar o mínimo de impactos negativos sobre o ambiente, nem devem explorar recursos limitados ou em perigo de extinção.
- Os edifícios deverão ser construídos de forma a captarem a energia solar de forma eficaz e na medida correcta, deverão também possuir inércia térmica de forma a minimizarem o uso de sistemas de climatização artificial.
- A ventilação é fundamental para a qualidade do ar interior.
- A iluminação natural deve ser uma das prioridades do desenho do edifício.
- Deverão neutralizar-se os ruídos e campos magnéticos artificiais.
- A água é um recurso vital e escasso, deverá ser uma das preocupações do projecto e da manutenção dos edifícios.